Braga impõe uma goleada histórica ao Ferencváros (4-0), desfazendo a desvantagem húngara de dois golos e garantindo a quarta presença nos «quartos» da competição. Ricardo Horta, capitão e herói, bisou numa noite inesquecível.
A Pedreira rugiu como raramente se viu. Durante 90 minutos — dos quais bastaram apenas 34 para virar a eliminatória — o Sporting de Braga desmentiu todos os prognósticos pessimistas, derrubou o sólido Ferencváros húngaro por 4-0 e garantiu uma presença histórica nos quartos-de-final da Liga Europa pela quarta vez na história do clube. Uma noite que ficará gravada na memória colectiva dos adeptos minhotos.
A missão parecia hercúlea. Uma semana antes, em Budapeste, os guerreiros do Minho tinham saído derrotados por 2-0 do Groupama Arena, num encontro em que a eficácia húngara — traduzida em golos de Gabi Kanichowsky e Lenny Joseph — castigara duramente uma equipa que dominou o jogo mas que falhou onde mais conta: frente à baliza contrária. O regresso a casa, portanto, exigia não apenas uma vitória, mas uma vitória por três golos de diferença sem sofrer qualquer remate nos aposentos da própria rede.
Carlos Vicens apostou numa equipa renovada em relação à primeira mão, recuperando Víctor Gómez, que cumprira castigo em Budapeste, e promovendo Gorby e Gabri Martínez ao onze inicial. A resposta foi imediata, visceral, de uma intensidade raramente vista no futebol europeu.
Uma Primeira Parte de Antologia
O guião desta noite começou a ser escrito ao minuto 11. Pau Víctor rasgou a defesa magiar com um passe cirúrgico para Rodrigo Zalazar, que se infiltrou pelo corredor direito e serviu Ricardo Horta ao segundo poste com precisão de cirurgião. O capitão, que atravessa a melhor fase da carreira, não desperdiçou e inaugurou o marcador com a frieza de quem sabe o momento que está a viver.
Antes que os húngaros assimilassem o primeiro golpe, chegou o segundo. Aos 15 minutos, Zalazar voltou a aparecer nas contas do jogo com um cruzamento para a área. A defesa do Ferencváros afastou de forma deficiente, e a bola sobrou na entrada da área para Florian Grillitsch, que rematou com potência e colocação para fuzilar a baliza de Dávid Gróf. Em menos de um quarto de hora, o empate agregado estava feito e o estádio em êxtase.
«Estávamos preparados para fazer um jogo melhor do que o da semana passada, mantendo um equilíbrio emocional muito alto.»
Carlos Vicens · Treinador do Sporting de BragaO Ferencváros, subitamente privado da vantagem que protegia com tanto cuidado, tentou reorganizar-se. Mas Braga não deu espaço nem tempo para respirar. Aos 34 minutos chegou o golo que valeu a viragem no marcador agregado: Pau Víctor encontrou espaço nas costas da defesa húngara, serviu com mestria e Gabri Martínez, o médio espanhol, apareceu no sítio certo para finalizar no canto oposto com uma frieza desconcertante. Em 34 minutos, a eliminatória estava virada. O sonho tornou-se realidade antes do intervalo.
Marcadores da Noite
Assist: R. Zalazar
Assist: R. Zalazar
Assist: Pau Víctor
Assist: F. Grillitsch
Segunda Parte de Gestão e Classe
Se a primeira parte foi de tempestade, a segunda foi a serenidade de quem sabe ter a eliminatória nas mãos. Ainda assim, aos 53 minutos, Braga voltou a golpear. Numa jogada colectiva de rara beleza, a bola passou por várias mãos até chegar a Grillitsch, que cruzou da direita para o coração da área, onde Ricardo Horta surgiu em jeito para rematar de primeira e assinar o seu bis. Um golo belo, de autor, que fez levantar a Pedreira em uníssono.
O Ferencváros, encolhido e sem argumentos, apenas teve um momento de reacção assinalável, perto da hora de jogo, quando Júlio Romão desfechou um remate poderoso de fora de área que obrigou Lukas Hornicek a uma defesa de enorme qualidade. Fora isso, o guarda-redes checo ficou longe de ser o protagonista que habitualmente é nas noites europeias do Braga.
Carlos Vicens aproveitou o conforto no marcador para gerir o esforço dos seus, promovendo entradas de João Moutinho, Mário Dorgeles e Gabriel Moscardo. O veterano internacional português, que começou no banco, entrou num ambiente festivo e ajudou a controlar o ritmo de um jogo que estava, há muito, decidido.
Um Clube na História
Com este apuramento, o Sporting de Braga atinge pela quarta vez na sua história os quartos-de-final da Liga Europa — depois das presenças em 2010/11 (quando chegou à final em Dublin, perdendo para o FC Porto), 2015/16 e 2021/22. Uma marca de consistência europeia notável para um clube da dimensão dos bracarenses, que confirmam também um encaixe financeiro de 2,5 milhões de euros associado ao apuramento.
Na próxima ronda, os minhotos aguardam pelo vencedor do duelo entre o Panathinaikos e o Real Bétis. Os gregos chegam com uma vantagem de 1-0 da primeira mão, com o segundo jogo marcado para quinta-feira, em Sevilha. Seja qual for o adversário, o Braga entra em cena como uma equipa capaz de tudo — como esta quarta-feira ficou definitivamente provado.
A Pedreira fez história. E os adeptos bracarenses, de pé até ao fim, sabem que podem sonhar ainda mais alto.
Seja o primeiro a comentar!