Com um vermelho a Bastoni que mudou o destino da noite, Donnarumma a suster o impossível durante 80 minutos, e Esposito a enviar o primeiro penálti para as nuvens como Roberto Baggio em 1994, a Itália tetracampeã assiste ao seu terceiro apagão consecutivo num Mundial. Em Zenica, a Bósnia chorou de alegria. Em Roma, chorou-se de vergonha.
Há noites em que o futebol ultrapassa a condição de jogo e entra no domínio da tragédia grega. Esta foi uma delas. A Itália, tetracampeã do mundo, detentora de uma das histórias mais ricas do futebol planetário, saiu do Estádio Bilino Polje de Zenica derrotada nos penáltis por 4-1, eliminada pela Bósnia e Herzegovina na fase de repescagem do Campeonato do Mundo de 2026. É a terceira Copa do Mundo consecutiva em que a Azzurra ficará ausente — um feito sem precedentes na história da selecção italiana, que não disputa o torneio desde 2014, no Brasil.
A narrativa desta noite pertence a Gianluigi Donnarumma, que durante oitenta minutos fez tudo o que um guarda-redes pode fazer para segurar o seu país numa competição que parecia já ter escolhido o seu vencedor. Pertence a Alessandro Bastoni, cujo cartão vermelho ao minuto 41 — por falta sobre Memic que cortou uma clara oportunidade de golo — reescreveu o guião desta final. E pertence, com uma crueldade particular, a Francesco Pio Esposito, que enviou o primeiro penálti italiano para o espaço aéreo de Zenica, numa cena que evocou imediatamente a imagem imortal de Roberto Baggio a falhar na final de 1994.
O penálti de Esposito subiu. Alto. Demasiado alto. Como Baggio em Los Angeles. E Zenica explodiu.Crónica ao vivo — Estádio Bilino Polje, Zenica
Kean Abre, Bastoni Destrói
O primeiro tempo começou como toda a gente esperava: a Bósnia a pressionar com intensidade física no seu estádio, a Itália a tentar controlar com a bola. Mas aos 14 minutos, num momento de desatenção bósnia, Barella lançou Kean em profundidade. O guarda-redes Vasilj saiu mal — uma decisão que ficará na história da sua carreira pelas piores razões — e o avançado italiano rematou colocado para o fundo da baliza. Um golo magnífico do artilheiro do Fiorentina, o seu quinto em seis jogos com a selecção.
O Bilino Polje reagiu com rugido. A Bósnia de Sergej Barbarez respondeu com pressão crescente, criando situações de perigo que Donnarumma foi resolvendo com a classe que o coloca entre os melhores do mundo. Aos 37 minutos, uma cabeçada de Demirovic passou muito perto. Depois, aos 41, num contra-ataque bósnio, Memic arrancou em direcção à baliza italiana com Bastoni como último defensor. O central italiano — um dos melhores da Europa ao serviço do Inter de Milão — derrubou o avançado. Cartão vermelho directo do árbitro Clément Turpin. Itália com dez homens durante 50 minutos mais prolongamento. O jogo tinha um novo dono.
Donnarumma: Um Homem Contra o Destino
O segundo tempo foi de sofrimento colectivo para os italianos e de pressão avassaladora por parte da Bósnia. Com um jogador a mais, os bósnios atacaram em ondas sucessivas. Edin Džeko, lenda da selecção e símbolo de uma geração, movimentou-se de forma incansável tentando criar espaço. Gennaro Gattuso, no banco italiano, substituiu o avançado Retegui pelo zagueiro Gatti para recompor a defesa — um sinal claro da dificuldade do momento. A Itália passou a depender da frieza táctica e dos milagres do seu número um.
Donnarumma fez-los acontecer. Intervenção sobre Alajbegović. Defesa sobre Tabaković. Uma saída cirúrgica a cortar um cruzamento. O guarda-redes do Manchester City transformou-se no protagonista mais improvável de uma noite que parecia escrita para a tragédia italiana. Mas as probabilidades raramente se submetem aos heróis individuais. Aos 79 minutos, numa jogada de bola parada, Džeko cabeceou para a área e Haris Tabaković — o substituto entrado de fresco — aproveitou o rebote com o pé esquerdo para bater Donnarumma pelo ângulo oposto. Empate a 1-1. O Bilino Polje transformou-se num vulcão de emoção.
A Lotaria das Onze Marcas: Baggio Ressurgiu em Esposito
O prolongamento passou sem golos. Ambas as equipas, esgotadas de uma batalha de 90 minutos repleta de tensão e emoção, recusaram arriscar. E assim chegámos à lotaria dos penáltis — um ritual que a Itália conhece bem, mas que desta vez se revelou cruel.
Tahirović abriu para a Bósnia com qualidade. Depois, Esposito — o jovem avançado do Inter que entrara em campo como substituto — adiantou-se até à marca dos onze metros, encarou Vasilj, e rematou com força. A bola subiu. Alta demais. Para fora, por cima da barra. Uma cena que imediatamente fez o mundo do futebol recordar a imagem imortal de Roberto Baggio a falhar o último penálti da final de 1994. A história italiana com as grandes penalidades tem uma crueldade particular que esta noite voltou a manifestar-se. Tabaković e Tonali converteram depois — um por cada lado. Mas Cristante falhou o seu remate para a Bósnia o guardar com autoridade. A partir daí, os quatro bósnios foram impecáveis. A Itália estava fora.
⚠ Nota Histórica — A Crise Italiana
AItália, tetracampeã do mundo (1934, 1938, 1982, 2006), não disputa um Campeonato do Mundo desde o Brasil 2014. Falharam as qualificações de 2018 (eliminada pela Suécia na repescagem), de 2022 (eliminada pela Macedónia do Norte, então parte da Jugoslávia) e agora de 2026. Nenhuma grande nação do futebol europeu acumulou três ausências consecutivas num período tão recente. A Azzurra completará pelo menos 16 anos fora da mais importante competição de selecções do planeta.
Bósnia: Uma Nação que Mereceu Esta Noite
Do lado vencedor, a festa foi enorme. A Bósnia e Herzegovina — um país que declarou a sua independência em 1992, no meio de uma guerra devastadora, e que participou pela primeira vez num Mundial em 2014 — regressa ao máximo palco do futebol mundial pela segunda vez na história. Edin Džeko, o capitão que mais vezes vestiu a camisola bósnia, saiu do campo com os olhos em lágrimas. Para um jogador que tem dedicado décadas ao serviço da sua selecção, esta classificação representa muito mais do que um resultado desportivo.
A Bósnia integra o Grupo B ao lado do Canadá anfitrião, do Qatar e da Suíça. A estreia está marcada para 12 de Junho diante dos canadenses. É um grupo difícil, mas para uma equipa que eliminou a Itália com dez homens em campo durante mais de metade do jogo, a palavra dificuldade adquiriu um significado diferente nesta noite de Zenica.
| Selecção | Classificação | |
|---|---|---|
| 🇨🇦 | Canadá | Anfitriã (CONCACAF) |
| 🇧🇦 | Bósnia e Herzegovina | Repescagem Europa |
| 🇶🇦 | Qatar | Anfitriã (AFC) |
| 🇨🇭 | Suíça | Eliminatórias UEFA |
A noite terminou com imagens que pesarão durante anos: Donnarumma sentado no relvado, imóvel, a olhar para o nada. Gattuso com a cabeça entre as mãos. Esposito a abraçar os companheiros de equipa em lágrimas. E do outro lado do relvado, os jogadores bósnios a saltarem em cima uns dos outros, com Džeko no centro da celebração, finalmente a viver o momento que talvez nunca julgou possível voltar a viver. O futebol, na sua essência, é isto: cruel e glorioso ao mesmo tempo, sem distinção de reputações nem de histórias passadas. Esta noite, em Zenica, a história foi escrita em bósnio.
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