Havia um peso invisível sobre o estádio New Balance Arena, em Bérgamo, muito antes de a bola rolar. É o peso da Suécia, da Macedónia do Norte, de dois Mundiais perdidos num país onde o futebol é, antes de tudo, uma questão de honra nacional. Mas desta feita, a Itália soube encontrar dentro de si o que precisava para sobreviver: dois remates certeiros de Sandro Tonali e Moise Kean que valem o apuramento para a final da repescagem europeia com uma vitória por 2–0 sobre a Irlanda do Norte.
Uma Primeira Parte Para Esquecer
Gennaro Gattuso escolheu Bérgamo por razão: queria um caldeirão, não uma catedral vazia. E a torcida correspondeu desde o primeiro minuto, empurrando os azzurri em cada lance. Contudo, a equipa italiana foi fiel à sua recente tradição de angústia: dominou o jogo com posse de bola, empilhou escanteios e tentativas, mas encontrou pela frente uma Irlanda do Norte extremamente disciplinada, fechada atrás com todos os seus jogadores atrás da linha da bola.
Federico Dimarco foi das poucas notas positivas do primeiro tempo, com um pontapé perigoso que obrigou o guarda-redes Pierce Charles a intervir. Mas o momento mais constrangedor pertenceu a Mateo Retegui: recebeu o esférico de graça a dois metros da baliza, disparou completamente sozinho, mas adiantou demasiado a bola e desperdiçou a melhor oportunidade da partida. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Era inevitável que tanto os tifosi como os jogadores fossem constantemente lembrados do que aconteceu nas duas repescagens anteriores. O medo ensombrou o futebol durante grande parte do jogo.
— Análise do jogo, repescagem europeia 2026
Tonali Acende a Chama
O intervalo trouxe uma equipa diferente. Gattuso terá dito o necessário no balneário, e a Itália entrou no segundo tempo com maior verticalidade e agressividade. Aos 53 minutos, Retegui voltou a desperdiçar — desta feita interceptado pelo defesa Brodie Spencer — e Kean falhou um remate cruzado que o guarda-redes Charles defendeu com a ponta dos dedos.
Então, ao minuto 56, surgiu Sandro Tonali. O médio do Newcastle aproveitou uma má abordagem da defesa da Irlanda do Norte, recebeu a bola na entrada da área e, de primeira, soltou uma bomba que não deu qualquer hipótese a Pierce Charles. O estádio explodiu. O fantasma recuou alguns passos.
Kean Sela a Classificação
Com vantagem, a Itália ganhou espaço e conseguiu controlar melhor o jogo. A Irlanda do Norte, obrigada a sair mais para o ataque, deixou espaços que os azzurri souberam explorar em transições rápidas, quase sempre com Kean como alvo. O atacante ainda atirou por cima aos 75 minutos, mas acabou por ser recompensado cinco minutos depois.
Numa jogada de qualidade superior, Tonali serviu Kean com um passe longo pela direita; o avançado cortou para o centro, enganou o defesa com um movimento de cintura e bateu cruzado, com o pé esquerdo, enviando a bola para o canto da baliza — ainda com um ligeiro toque na trave antes de entrar. Era o 2–0. Era a tranquilidade. Era, finalmente, a libertação.
Homenagem a Savoldi
Antes de a partida começar, foi respeitado um minuto de silêncio em memória de Giuseppe Savoldi, lendário avançado italiano falecido aos 79 anos, que marcou época no futebol peninsular, em particular ao serviço do Bologna. A cerimónia conferiu à noite um carácter ainda mais emocional, lembrando que há muito mais do que pontos em jogo quando a Itália desce a campo numa repescagem para o Mundial.
🇮🇹 Itália
- 1 Donnarumma
- 2 Mancini
- 5 Calafiori
- 23 Bastoni
- 3 Dimarco
- 7 Politano
- 8 Tonali
- 4 Locatelli
- 18 Barella
- 11 Kean
- 9 Retegui
Seleccionador: Gennaro Gattuso
🏴 Irlanda do Norte
- 1 P. Charles
- 2 Hume
- 5 McConville
- 6 McNair
- 3 Spencer
- 4 Devlin
- 8 S. Charles
- 14 Galbraith
- 11 Devenny
- 10 Price
- 9 Donley
Seleccionador: Michael O'Neill
Itália vs. Bósnia e Herzegovina — Final da Repescagem
31 de Março de 2026 · 15h45 (de Lisboa) · Fora de casa · Jogo único
A Azzurra enfrenta a Bósnia e Herzegovina, que eliminou o País de Gales nas grandes penalidades (4–2), numa final única que vale a vaga no Grupo B do Mundial 2026, ao lado do Canadá, do Qatar e da Suíça.
Análise: Um Passo Decisivo, Mas Falta o Mais Difícil
A Itália venceu, mas não convenceu plenamente. A primeira parte foi um retrato fiel das suas limitações colectivas — falta de criatividade entre linhas, dependência excessiva dos extremos e dificuldade em romper blocos defensivos compactos. A Bósnia e Herzegovina, adversária na final, é uma equipa com mais qualidade individual e que vem de uma noite de alta intensidade emocional após os penáltis frente ao País de Gales.
O que muda é que agora a Itália não joga em casa. O factor psicológico, que tanto pesou nesta noite em Bérgamo, terá de ser gerido à distância, longe dos tifosi que encheram o estádio em apoio. Mas há um argumento que pode ser mais poderoso do que qualquer outro: a equipa que entra em campo a 31 de Março sabe que uma derrota significa mais quatro anos de espera. E essa certeza, paradoxalmente, pode ser a maior fonte de motivação para exorcizar de vez os fantasmas do passado.
Para a Irlanda do Norte, a eliminação encerra um sonho que alimentaram durante a fase de apuramento. A última participação numa fase final de um Mundial remonta ao México de 1986 — quarenta anos de ausência que continuarão a marcar a história de uma das selecções mais apaixonadas das ilhas britânicas. A equipa de Michael O'Neill mostrou organização e valentia, mas a qualidade individual italiana acabou por fazer a diferença.
Repescagem Europeia para a Copa do Mundo FIFA 2026 · Bérgamo, Itália
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