No Stade Maurice-Dufrasne, em Liège, na Bélgica, escreveu-se nesta quarta-feira um capítulo inédito na história do futebol internacional: a República Democrática do Congo e a Dinamarca mediram forças pela primeira vez em partida sénior oficial. O palco escolhido não foi aleatório — a cidade belga abriga uma das maiores comunidades congolesas da Europa, herança de um passado colonial que ainda molda os laços entre os dois países. As bancadas do estádio transbordaram de apoio aos Leopardos, num ambiente que lembrou, em muitos momentos, uma partida em casa para os africanos.
O contexto das duas selecções não poderia ser mais contrastante. A Dinamarca chegou a este encontro com o peso de uma ausência histórica: pela primeira vez desde 2014, os nórdicos estarão fora de uma Copa do Mundo, depois de caírem nos pênaltis para a República Checa na repescagem europeia. O técnico Brian Riemer, pressionado a reconstruir o projeto, utilizou este amistoso para testar combinações e avaliar jovens promessas. Do outro lado, os Leopardos pisaram o relvado em estado de euforia nacional, após garantirem a classificação para o Mundial pela primeira vez desde 1974, quando representavam o país ainda sob o nome de Zaire.
'Não podemos nos contentar apenas com a classificação. Quando se prepara uma selecção para um torneio internacional, é com a ambição de fazer resultados.'— Sébastien Desabre, seleccionador da RD Congo
Leopardos em Alta: O Ressurgimento Africano
Sob o comando do técnico francês Sébastien Desabre, a RD Congo percorreu uma maratona classificatória que incluiu a superação de adversários de peso como Camarões, Nigéria e Jamaica. O resultado foi uma vaga no Grupo K do Mundial, onde os Leopardos irão defrontar Portugal a 17 de junho, seguida da Colômbia (23) e do Uzbequistão (27). A selecção chega ao torneio com um palmarés recente invejável: oito vitórias nos últimos dez jogos, defesa sólida e ataque com qualidade real, nomeadamente com os dinamizadores Yoane Wissa e Cédric Bakambu.
A preparação para o Mundial tem sido cuidadosa. Os jogadores, a maior parte dos quais actua em clubes europeus, reuniram-se na Bélgica com antecedência para treinos intensivos. Uma particularidade marcou a concentração: por causa de um recente surto de ébola no Congo, todos os atletas tiveram de realizar testes médicos antes de poderem entrar no país anfitrião, um protocolo que não abalou a confiança nem o entusiasmo da comitiva africana.
Dinamarca à Procura de um Novo Rumo
O onze dinamarquês apresentado por Riemer foi alvo de muita atenção. O seleccionador optou por uma estrutura de 4-3-3 com construção a partir do guarda-redes, mas a ausência de Hjulmand por lesão obrigou a ajustamentos no meio-campo. Gronbaek foi chamado a actuar como segundo médio defensivo ao lado de Hojbjerg, reduzindo a capacidade de filtragem da equipa. Na baliza, a ausência do lendário Kasper Schmeichel, que anunciou a aposentadoria após não recuperar de uma lesão grave, encerrou definitivamente uma era dourada do futebol escandinavo. Com 120 internacionalizações, o filho de Peter Schmeichel foi o rosto de uma geração que chegou às meias-finais do Euro 2020.
O avançado Rasmus Hojlund é a grande referência ofensiva dos nórdicos. Em excelente momento individual, o jovem ponta de lança marcou 12 golos em 33 jornadas da Serie A italiana pela temporada 2025-26 enquanto emprestado pelo Manchester United ao Nápoles. Eriksen, veterano e metrónomo do meio-campo dinamarquês, continua a ser o grande organizador da equipa, conferindo experiência e calma num grupo em processo de renovação.
Um Duelo de Contrastes e uma Nação em Festa
Este amistoso foi muito mais do que um mero ensaio pré-Mundial para a RD Congo. É o primeiro de dois testes europeus antes do embarque para os Estados Unidos, onde se realizará a Copa do Mundo. Para os congoleses que vivem na diáspora belga, ter os Leopardos a jogar em Liège equivaleu a uma festa nacional antecipada. Bandeiras, tambores e cânticos encheram as imediações do Stade Maurice-Dufrasne horas antes do apito inicial, transformando a cidade flamenga numa pequena Kinshasa por uma tarde.
A memória de 1974 paira sobre a selecção como motivação e alerta. Nessa Copa do Mundo no Brasil, os Leopardos — então chamados de Zaire — disputaram três partidas, sofreram 14 golos e foram goleados por 9-0 pela Jugoslávia, numa das maiores derrotas da história do torneio. Cinquenta e dois anos depois, a selecção volta ao palco mais importante do futebol com outra ambição, outro nível técnico e outra mentalidade, como ficou demonstrado neste encontro em Liège.
'Este tipo de amistoso revela mais do que o placar final. Revela o carácter de uma equipa, a sua capacidade de jogar sob pressão e as suas verdadeiras ambições para o torneio.'— Análise da imprensa europeia sobre o confronto
Olhos Voltados para os Estados Unidos
Com a Copa do Mundo a pouco mais de duas semanas de distância, ambas as selecções colheram ensinamentos diferentes desta tarde em Liège. A Dinamarca, apesar de fora do torneio, viu jovens jogadores ganharem minutos preciosos em contexto internacional, num processo de renovação geracional que Riemer conduz com paciência. Para a RD Congo, a partida confirmou que a selecção está pronta para competir ao mais alto nível, alimentando o sonho de uma nação que aguardou 52 anos por este momento.
Os Leopardos partem agora rumo a Estados Unidos com a moral elevada, uma identidade tática clara e a certeza de que podem surpreender qualquer adversário. Portugal, a Colômbia e o Uzbequistão foram avisados: os Leopardos chegam ao Mundial não apenas para participar, mas para marcar a sua presença de forma indelével.
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